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domingo, 18 de dezembro de 2011

Relato de Parto – Benjamin – 2 de outubro (39 semanas completas)


No sábado, dia primeiro de outubro, fomos para o centro comprar algumas coisinhas que faltavam (e nem compramos tudo), eu já estava naquele estado de urgência de deixar tudo arrumadinho, mesmo sabendo que podia demorar quase um mês ainda, mais três semanas até completar 42, quem sabe até mais.
Durante as compras, respondi algumas vezes a pergunta tradicional “É para quando?” com o meu também já tradicional “Qualquer momento. Pode ser agora, ou para daqui três semanas. Agora é só esperar o menino decidir”.
Foi por essas compras da manhã que achei que as dores nas costas acompanhadas de contrações a tarde eram só cansaço. Achei que eram as Braxton que me visitavam diariamente. O estranho mesmo era que primeiro vinha a dor nas costas e depois as contrações, por isso, ainda nem tenho certeza se eram mesmo contrações reais. Dormi um pouco durante a tarde para ver se elas acalmavam. Acalmaram, não era o dia ainda.

Queríamos ir para algum lugar no domingo e o Alex queria ligar para os amigos para marcarmos uma ida até uma cachoeira. Eu queria visitar Oxum, senhora das águas doces, antes do pequeno chegar, já fazia um tempo que queria isso.
Reclamei mais de uma vez com o Alex de acabar com o crédito nos celulares (o meu e o dele – Fala muito! rs), e se precisássemos ligar para a Patrícia (enfermeira obstetra) de madrugada? Ele ignorou essa possibilidade e não deixou quase nada de crédito.

Quando fomos dormir já era tarde, não lembro exatamente a hora. Como acontecia na maioria das noites de barrigão acordei de madrugada, parecendo que não tinha dormido nada. Além da costumeira vontade de fazer xixi, sentia também dor de barriga. Fui no banheiro e só consegui fazer umas gotinhas, mas a vontade continuava, senti medo de ser a infecção de urina voltando. Fiquei um pouco no banheiro, quase dormindo, depois voltei para cama. Mal fechei os olhos e abri de novo, a dor tinha voltado.
Acho que foram umas três ou quatro idas ao banheiro com a tal dor de barriga. Quando tentava deitar, além da dor de barriga vinha uma nas costas que me impedia de ficar deitada.

Com tanto vai e volta, o sono já tinha sumido e eu vi a hora, umas 4 horas da manhã. Até pensei que podia ser trabalho de parto, mas pensei que era minha ansiedade falando mais alto. Não era, mais uma ida ao banheiro e o tampão mucoso tinha começado a sair. Era trabalho de parto. Fiquei tão feliz!
Benjamin ia mesmo chegar, tentei não pensar no tempo que isso ia levar, porque podia ser logo ou não.  Lembrei do que sempre lia nos relatos: tentar dormir para encarar descansada todo o processo. Fui para cama e acordei o Alex:

“Lembra das aulas sobre o parto e tudo mais?”
“Uhum” – mais dormindo que acordado.
“Sabe o tampão mucoso?”
“Uhum”
“Então, saiu. Mas é só para você saber, volta a dormir que vai demorar ainda”

Ele diz que não conseguiu dormir mais, mas eu tenho certeza que ele cochilou bastantinho ainda rs. Tentei dormir também, mas deitada a dor era muito ruim, eu me contorcia, sentia vontade de chorar, gemia. Impossível ficar deitada.
Levantei e quando vinham as contrações eu me apoiava nos móveis, ficava de cócoras e jogava o peso do corpo. Elas estavam irregulares, às vezes 10 minutos, às vezes 15, às vezes duravam 30 segundos, as vezes 40. Eu anotava a hora delas em um papel e o tempo que duravam.
Percebi que eu estava tensionando todo o corpo a cada contração, e lembrei da Flávia dizendo que era justamente o que não devia fazer, já que piorava a dor e depois, ficava toda dolorida. Tentei soltar o corpo, me entregar as sensações, tinha que me concentrar para fazer isso.
Lembrei do que a Patrícia e a Flávia (doula) tinham dito para ter certeza que era mesmo o trabalho de parto e contrações, entrar no chuveiro quente e ficar por lá mais de uma hora. Fiz isso, e foi um alívio, a água caindo nas costas ajudava e acho que espaçou um pouco as contrações, mas elas não paravam.
Fiquei no chuveiro até não agüentar mais a água e vesti um vestido coral que, depois, minha irmã contou que era a cor de Iansã, orixá guerreira, que estávamos falando sobre no dia anterior.
Mandei uma mensagem para minha irmã se preparar que o Benjamin estava chegando. Ela iria ficar em casa para fazer comida e ajudar na parte prática da coisa
Passei o resto do tempo andando pela casa e usando a bola suíça (aquela de pilates). As dores eram tranquilas quando eu ficava em movimento, na maioria até conseguia falar e pensar em outras coisas, eu que decidia prestar atenção nelas, sentir cada uma delas.

Umas seis horas o Alex levantou, quando ele viu o papel com a anotação das contrações levou um susto, viu que fazia algumas horas que tinha começado e perguntou se ia dar tempo das enfermeiras chegarem ou se ele que ia ter que fazer o parto. Eu ri e lembrei que o processo era demorado, que podia nascer só na segunda.
Ele ia pegar minha irmã, comprar o que ainda faltava (absorvente para mim, plástico para cama, álcool 70% coisas assim), na padaria e no supermercado, porque não tínhamos praticamente nada em casa. Por isso ele ficou praticamente toda manhã fora.

Nisso, as contrações já tinham se tornado menos espaçadas, cerca de cinco minutos, mas a duração continuava irregular. Liguei para a Patrícia e falei o que estava acontecendo e a contagem de contrações, perguntei se podia ser alarme falso e ela disse que já estava indo para minha casa. Ah, e o crédito acabou no meio da ligação! rsrs

Eu continuei andando pela casa, usando a bola. Logo o Alex deixou minha irmã que, se não me engano, foi lavar as fraldinhas de pano que tínhamos comprado no dia anterior. Lembro de ter comentado com ela e que ia ser desanimador se eu não tivesse dilatação ou tivesse muito pouco, mesmo não tendo muita dor e estando tranqüilo.

A Patrícia e a Flávia vieram de São José dos Campos e chegaram lá pelas 8h. Pouco depois de chegarem, a Patrícia já fez o toque e ouviu o coraçãozinho do Benjamin. Depois de ouvir os batimentos, ela perguntou se eu tinha comido e como não tinha, mandou que eu comesse de preferência um chocolate. Na hora não me toquei, mas agora acredito que o batimento devia estar meio baixo. Mas quando fez o toque, foi um susto bom, eu já estava com cerca de 8 cm de dilatação! Até as duas se assustaram porque eu estava bem tranqüila. E o bebê já estava encaixado e baixo.

Logo em seguida o Alex chegou da padaria e eu comi qualquer coisa sem muita vontade. A Flávia então me mandou ir para o chuveiro relaxar, que isso iria acelerar o processo. Enquanto isso o povo corria para encher a banheira. Era meio estranho ver todo mundo trabalhando e correndo enquanto eu não podia fazer muito mais que esperar e me concentrar no processo.

O cansaço começou a bater e tentei dormir encostada na bola, enquanto isso a Patrícia massageava uma parte das minhas costas que estava inchada, a área do osso sacro se não me engano. Não consegui dormir, mas deu para descansar um pouco, consegui me voltar um pouco para dentro, encontrar silêncio.

Em algum momento me perguntaram sobre a bolsa, se tinha estourado, e eu disse que achava que não.  Contaram que era possível nascer sem estourar, mas que elas nunca tinham visto, só ouvido falar. Chamava nascer empelicado. Minha irmã me lembrou que naquela semana tinha comentado comigo sobre isso de um livro de História que tinha lido, que na Itália quem nascia dessa forma era considerado um ‘benandanti’* e combatia os ‘malandantis’* através de viagem astral (tem uma foto da minha cara quando ela me lembrou disso e eu falei algo como “É?” rsrs). Pensei que seria uma bonita coisa para contar para o Benjamin se ele nascesse dessa forma.


Descansando entre as contrações.
Com carinho da Flávia, Patrícia e Alex.
Depois de muito trabalho duro de todos, a banheira estava cheia, e as dores tinham começado a piorar. Quando entrei na água a contração seguinte foi bem mais leve, o calor e o líquido ajudaram bastante e consegui relaxar um pouco mais na água. Eu ainda conseguia conversar entre as contrações. E sem mais panelas de água para levar o Alex se concentrou em organizar as músicas que eu tinha separado para o parto. Zeca Baleiro, Alceu Valença, Dona Zica, Lenine e Faun.



As dores voltaram a piorar, e pensando agora, imagino que se estivesse fora da água seriam bem piores. O Alex ficou na borda e quando vinha uma muito forte eu me apoiava nele, quando passava eu aproveitava para respirar, descansar e pensar no bebê que estava por vir. Durante as contrações eu ia mudando de posição até encontrar uma que diminuísse a dor, e fazia as respirações que a Flávia ensinou nas aulas. Quando veio uma mais forte, a respiração ficou mais forte e minha irmã disse “Grita aí”, e eu gritei. Gritei alto, forte e esqueci da dor (Alex deve ter ficado surdo por uns dias, foi bem na orelha dele). Parava para respirar e a dor voltava, era preciso gritar.

Mais descanso. Mais carinho.
Gritei tanto que os vizinhos vieram ver se estava tudo bem, tínhamos nos mudado a pouco tempo e nem os conhecíamos. Era domingo hora do almoço... rsrs. Minha irmã atendeu a porta e disse que estava tudo bem. Achei que eles iam chamar a polícia e consegui rir.

A cada contração eu tentava lembrar que elas me trariam meu filho, pensava no meu corpo se abrindo, no meu filho chegando... tudo que me ensinaram, que aprendi, que li. Até que comecei a sentir vontade de fazer força, de empurrar, mas não sabia se podia, tinha medo de fazer força antes da hora, medo dessa vontade ser só de que tudo acabasse logo, queria dormir.

Perguntei quando podia fazer força e a Patrícia e a Flávia responderam que assim que eu sentisse vontade. Então, quando a vontade vinha, fazia força, empurrava, mas tentava me concentrar para só fazer isso quando a vontade fosse do meu corpo e não impulso do meu cansaço.

Eu podia sentir meu filho descendo pelo canal, era uma sensação estranha e boa, me dizia que estava acabando. Coloquei a mão e pude sentir, estava longe. Me perguntaram se o que eu sentia era meio liso, era. Era a bolsa, ela não tinha estourado ainda.

Não sei quanto tempo durou esse período, mas sempre que a contração passava eu tocava para ver onde estava a cabeça do Benjamin, às vezes estava bem baixa e eu me animava achando que ia acabar logo, mas na contração seguinte subia um pouco e eu me perguntava se ele ia mesmo nascer. Parecia que nunca ia acabar, ele subiu e desceu algumas vezes.

A Kátia chegou já nesse finalzinho e trouxe uma energia boa que se uniu a de todos os outros que já estavam lá. Eu achei que não tinha conseguido me desligar durante o processo até comentei isso com a Flávia dias depois, eu queria ter ido a partolândia, mas minha consciência sempre esteve ali. Mas repensando hoje vejo que minha consciência estava mesmo ali, mas ali em mim e no meu filho, e não ao redor. E isso só foi possível por aquela energia, pelo silêncio respeitoso, pela paciência, pela confiança...

Eu perguntei o que acho que todas nós devemos pensar em algum momento “Ele vai mesmo nascer? E se não nascer?”. Eu estava cansada, meu filho parecia estar tão perto em uma contração, mas na próxima se afastava. Não sei exatamente se isso era para ser assim ou se fui eu que atrasei o processo.

Em um dos intervalos das contrações a Patrícia tentou auscultar o coraçãozinho do pequeno, mas a minha posição (sentada com a perna dobrada para trás), não permitia e fiquei de pé para ver se melhorava para ela. Pareceu que era aquilo que faltava, que eu me levantasse. Antes que ela conseguisse encontrar o coração veio uma contração, forte. Fiz força e ele desceu. O círculo de fogo! Como doía aquilo, eu queria chorar, o Alex segurava minhas mãos e eu gemia de dor.

Benjamin coroou, eu não vi na hora, mas nas fotos deu para ver a bolsa d’agua, era meio verde e soube que isso era um pouco de mecônio. Soube depois também que o Alex se preocupou com isso porque não tinha ouvido quando falaram sobre. Acho que foram mais duas ou três contrações depois disso, que ele nasceu por inteiro, a cabeça desceu e ao passar o ombro a bolsa estourou. A Patrícia teve que ser rápida para ele não cair na água. rsrs

Esses últimos minutos foram os mais doloridos, mas passaram rápido e logo aquele serzinho pequeno já tinha nascido. Me sentei na banheira e ele veio para os meus braços, nasceu sem chorar, mas com os olhos muito abertos e vivos e olhou direto para os meus olhos. Era lindo, perfeito!

Ele chorou logo em seguida de frio, enquanto eu pingava de calor. Quando me levantei da banheira saiu muito sangue o que preocupou mais uma vez o Alex e um pouco a mim, mas a equipe disse que era normal e eu me sentia bem, só cansada.

Benjamin, horas depois de nascer.
Fomos para cama nos esquentar e algum tempo depois a placenta nasceu, uma sensação boa e até anestesiante. O cordão só foi cortado quando parou de pulsar, ele mamou na primeira ou segunda hora de vida com ajuda da Kátia e da Patrícia para acertar a pega, demorou um pouco para acertarmos, mas mamou bem. Eu não tive lacerações.

E foi assim que Benjamin nasceu, às 13h17 do dia 2 de outubro de 2011, um domingo de sol com chuva no final da tarde (como eu tinha pedido no dia anterior, que meu filho nascesse com chuva).

Agradecimentos

Ao Alex, por me acompanhar em uma Roda Bebedubem mesmo achando, a principio, “coisa de índio”. Por se abrir para essa possibilidade e perceber que era o melhor para mim e para o nosso filho e apoiar minha decisão integralmente. Por ter estado ao meu lado durante o processo todo, por ter segurado a minha mão, por ter me dado um olhar seguro e um sorriso quando eu sentia meu corpo se despedaçar e minha alma se abrir. Por ser tão contrário de mim, meu oposto, e ao mesmo tempo tão parecido... por tanta coisa, que é melhor deixar para lá. (Além claro do fato de ‘ter me dado’ o Benjamin rsrs)

A Flávia, a Patrícia, a Kátia e a Denise, que trouxeram (e trazem) a possibilidade de um parto humanizado não só para mim, mas para outras mães e bebês da região. Que permitem que esse ritual tão importante na vida de uma mulher, de um bebê, de uma família não seja esquecido e possa continuar acontecendo apesar das tantas dificuldades da nossa realidade obstétrica e hospitalar. Por saberem estar presentes respeitando o tempo, o corpo e a alma de cada mãe e filho. Por criarem um círculo mágico e sagrado a cada parto, confiarem no poder de fêmea de cada uma de nós. É impossível descrever em palavras o quanto essas mulheres mudaram a minha vida e mudam a de tantas outras, elas permitiram que nascesse não só um bebê , mas a fêmea que sempre senti e sonhei em mim: a felina silenciosa, a bruxa poderosa, a mãe paciente. (vou parar de escrever porque esse relato já tá virando um livro).

A minha irmã, Michele, que foi presença fundamental no nascimento do Benjamin e em sua primeira semana de vida. Que soube cuidar de mim, para que eu pudesse cuidar do meu pequeno. Bruxa da cozinha, que trouxe seus feitiços em forma de temperos e aromas para minha cozinha nos primeiros dias e alimentou corpo e alma.

A minha mãe, Maria Alice, que entendeu que para eu nascer mãe eu precisava me distanciar da condição de filha. Que mesmo achando loucura aceitou (ou pelo menos fingiu bem rsrs) meu parto domiciliar e depois ficou toda orgulhosa da minha força... rsrs. E que ainda hoje respeita meu maternar, sempre dando suas colheradas e palpitadas (muito bem vindas por sinal), mas sem impô-las.

Ao meu pai, Sinésio, que pode não ter entendido a maioria das minhas decisões, que talvez não tenha aceitado o parto domiciliar nem mesmo agora (rsrs), mas que as respeita. E que ainda não se deu conta que, se eu trilhei todo esse caminho, lutando por ter algo tão diferente da maioria, nadando contra a corrente, buscando informações a cada passo e tomando minhas próprias decisões sem tutela médica ou familiar, foi pura e simplesmente porque ele me ensinou a ser assim desde criança, nunca me dando uma resposta pronta, me fazendo buscá-la. Nunca me “dando o peixe, mas ensinando sempre a pescar”.

A todas as pessoas, conhecidas ou não, que de alguma forma fizeram parte desse processo todo. Seja nas listas, que mais li que escrevi, nos relatos de parto que me deram força e me fizeram chorar e sorrir ao mesmo tempo. Tanta gente que nem se deu conta do quanto me ajudou. 

sábado, 24 de setembro de 2011

[LIVRO] A Tenda Vermelha, de Anita Diamant


Li esse livro pela segunda vez em outubro de 2010, e falei de como ele mexe comigo aqui, nesse post de outro blog.
Hoje percebo que o que me toca nesse livro não são só as dores de Dinah e sua família. Dores que não convém citar já que não quero atrapalhar a leitura de ninguém e esse livro vale cada página.
O que me toca são as reuniões femininas na tenda vermelha, a união das mulheres daquela época, a forma como uma se apoiava nas outras e se amavam. É estranho pensar que antigamente as mulheres eram muito mais unidas do que hoje em dia, ainda mais quando consideramos que muitas vezes elas dividiam o mesmo homem e teoricamente, a disputa entre elas deveria ser muito maior que hoje em dia.

Quando foi que nos esquecemos de amar nossas irmãs? Quando foi que nos ensinaram que somos inimigas e os homens são tão melhores que nós? Quando foi que esquecemos os segredos femininos e terceirizamos nossas funções biológicas? Quando foi que ficamos tão fúteis e vazias? Quando foi que no tornamos tão ou mais machistas que alguns homens?

Penso em toda vez que vi uma mulher brava porque outra tinha lhe roubado o namorado, dos insultos, da disputa entre elas. Quando na verdade, quem deveria ser insultado era o homem, afinal, o compromisso era dele, não? 

Não, eu não sou feminista (esse termo só me parece o machismo ao contrário). Eu sou mulher, sou fêmea, e gosto de ser diferente dos homens, dos machos. Gosto de sangrar a cada lua para lembrar que posso gerar, se não houvesse sangue mensal, hoje o Benjamin não estaria aqui se formando de mim e do pai dele.*

Fico triste ao ver mulheres brigando com outras mulheres por motivos tolos, de ver mulheres tentando provar que são tão capazes quanto os homens e tendo de deixar seu lado fêmea de lado, de ver mulheres renegando a biologia, enojadas com seu sangue, preocupadas com um padrão de beleza photoshopado e machista. 

A gravidez me fez gostar ainda mais de ser fêmea, o privilégio de gerar um bebê é nosso, e confesso que tenho uma certa compaixão com machos que não podem sentir com tanta intensidade esse momento. Foi também a gravidez que me fez ver que as tendas vermelhas tem se levantado novamente, que há mulheres por ai lutando para pegarem de volta o poder sobre seus corpos, sobre sua sexualidade e sobre seus mistérios.

Vejo mulheres passando os mistérios umas para as outras, fêmeas alfa, fortes, admiráveis, são doulas, parteiras, enfermeiras obstetras (e as que tem passado para mim são daqui). Às vezes elas não têm rótulo nenhum, mas ensinam a parir, a amamentar, a maternar, são mulheres que conquistaram seus mistérios de volta e agora cuidam de devolvê-los a outras mulheres.

O mais bonito dessa tendas vermelhas modernas é que os homens não são mais proibidos de entrar nelas, os machos dispostos podem participar desse processo e os que tem coragem para fazer esse trajeto encontram a força do feminino, ficam mais perto de entender as diferenças e mais apaixonados pelas fêmeas. As tendas vermelhas também transformam os machos. Pena que os machistas não tenham coragem suficiente para fazer essa jornada ao lado de suas companheiras.

Mas vejo nesses círculos mistos de mulheres e homens uma nova esperança, uma nova possibilidade. Sem guerra dos sexos, sem inferior X superior, gêneros diferentes lado a lado. Homens e mulheres, machos e fêmeas se complementando.

Que os deuses permitam que eu e o Alex possamos criar o Benjamin assim, reconhecendo a força das fêmeas, respeitando o poder feminino e também o seu próprio poder de macho. Que ele não tenha medo de entrar nas tendas vermelhas, que ele caminhe lado a lado daquela que um dia amar.

*Sobre a menstruação tem um livro maravilhoso da Monika Von Koss que super vale a pena, Rubra força: fluxos do poder feminino. A sinopse pode ser encontrada aqui e uma parte do livro aqui.

Mais um post confuso. Era para ser sobre o livro, mas divaguei demais e não pretendo mudar. Aliás, não vou nem revisar. Só percebi que esqueci um dos pontos principais de falar do livro aqui, a história fala de Dinah e sua família. Família essa que já citei aqui, falando da origem do nome Benjamin. É! Benjamin é o irmão caçula de Dinah. E apesar deles não terem se conhecido e ele mal ter sido citado no livro, ser dessa família foi um dos muitos motivos da escolha do nome. Eu tinha cogitado Dinah se fosse uma menina.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Parto humanizado e domiciliar. Mas por quê?

Esse post não pretende informar sobre os motivos médicos que fazem com que o parto natural seja o mais interessante. Nem tenho gabarito para isso, é mais para explicar (e entender) os meus porquês. Se você procura informações científicas, veja os links no final do post.

Maternar sempre foi um sonho para mim, embora a maioria das pessoas a minha volta estranhem quando digo o quanto eu quis ser mãe. E o parto sempre foi uma parte importante do maternar, era o momento sagrado e mágico em que uma criança chega ao mundo. Era o ritual de passagem de filha para mãe, muito mais do que o sexo em si, o parto tornava a donzela em mulher... Afundar na dor, no instinto, encontrar nossas sombras mais profundas e então retornar, com uma criança nascida nos braços e renascida em mulher.

E eu sempre dei muito valor aos rituais de passagem, sempre senti uma pontada de decepção por não ter me preparado para a primeira menstruação. Por não existir mais a passagem dos segredos femininos de geração para geração, por eles estarem tão deturpados, tão neglicenciados. A maioria das mulheres nem se percebe mais da importância do sangue menstrual.

Desde pequena, lá pelos 11 anos, eu decidi que queria um parto na água (hoje já sei que não depende de uma decisão, mas do que meu corpo achar melhor na hora). Foi em um programa do Discovery, acho que o nome era História de um Bebê. Em um dos episódios apareceu um parto em uma banheira e aquilo era mágico, era um jeito maravilhoso de parir e de nascer. Mais tarde encontrei blogs e sites que apoiavam o parto natural, a amamentação prolongada... Coisas que iam de encontro ao que eu acreditava, fui vendo que não era a única a dar importância aos rituais de passagem, aos mistérios do corpo feminino. Encontrei mulheres que lutavam pelo seus direitos e pelos direitos de suas crias. Mulheres que lutavam para ter de volta o controle sobre seus corpos, aos seus segredos, tanto na hora do parto quanto na criação dos pequenos. Mulheres que sabiam de sua força...

Além do valor desses evento fisiológico e da influência deles na psique e espírito, tem também a importância que ele seja o mais natural possível, com o mínimo de intervenções e de drogas sintéticas., a não ser que sejam realmente necessárias para a sobrevivência e bem estar de mãe e filho 
Isso porque, o corpo humano, como o de todos os animais, foi feito para procriação da espécie, os hormônios são liberados para que isso ocorra e para que a mãe proteja a cria. A Natureza tem milhões de anos de experiência aprimorando o parto, e se estamos aqui hoje é porque funciona, porque mesmo que eu tenha nascido de cesárea, minha mãe, meu pai e todos os meus tios nasceram de parto natural, em casa, e nem todos tiveram parteira. Já a medicina tem quantos anos em intervenções e cesarianas?

Mesmo que não saibamos nenhuma história de problemas pelo excesso de cesariana (pelo menos, comprovadas cientificamente), não temos garantia nenhuma da segurança dela usada de forma indiscriminada, temos? O médico diz que é seguro hoje da mesma forma que achavam seguro assistir a testes de bomba atômica assim. (Tá, comparação um pouco exagerada, mas deu para entender como mudam a visão humana das coisas, né? O que hoje é dito seguro amanhã pode ser visto como absurdo)

Além do mais a dor é um aviso do corpo, é uma forma de comunicação que desaprendemos a entender. Estamos em uma sociedade em que isso é usual. É normal tomar um remédio qualquer para o mínimo de dor ou desconforto. Uma dorzinha de cabeça chata e lá vem o analgésico, não se pára para pensar no motivo da dor, não se trata a causa, se trata o efeito. E o que acontece? O corpo percebe que foi ignorado, não deram ouvidos para seu grito, e se a causa continua (trabalho demais, por exemplo) ele grita mais forte, a dor aumenta. Se toma uma dose maior de analgésico e o ciclo se repete.
E o mesmo acontece com as dores 'não-físicas', depressão? Anti-depressivo. Não consegue dormir? Calmante. E assim caminhamos, ignorando nosso corpo e seus avisos.

Por isso eu acho que é importante sim sentirmos a dor do parto, porque se ela faz parte do processo deve ter sua importância. Não que eu seja masoquista, ou que não esteja morrendo de medo da dor (e se eu não aguentar?), ou que não esteja torcendo para que eu esteja no time das mulheres que sente pouca ou nenhuma dor. Mas não quero que meu parto seja uma experiência pela metade, eu quero que ele seja completo, e se meu corpo diz que eu devo sentir dor por algum motivo, é porque eu preciso passar por essa dor, descobrir de onde ela vem e tratar sua causa. Causa essa que pode ser a posição, tensão, esforço... então, ao invés de ingerir drogas para cortar a dor, vou me focar em entender meu corpo para responder ao seu pedido: mudo de posição, tento relaxar, massagens para aliviar o músculo que está se esforçando.

Dor para mim não é sofrimento. Dor é só um aviso fisiológico, sofrimento é meu psicológico focando de forma errada na dor e se eu entendo o porquê e a importância da dor, já é meio caminho andado para aceitá-la e superá-la. Sei que um hospital não respeitaria essa minha opção, muito menos entenderia...

Da mesma forma que quero respeitar os avisos do meu corpo que vem em forma de dor, quero respeitar o meu tempo e o tempo do meu bebê. Não quero ter prazo para parir como se fosse um trabalho. Um hospital também não respeitaria isso.

Também não respeitaria o meu desejo de evitar intervenções desnecessária no meu filhote, ou o meu jeito de parir, fosse no silêncio ou fosse aos gritos.

Um hospital padrão e tradicional era a minha última opção por não respeitar meus desejos, por tirar de mim a chance de parir meu filho da forma como eu acho melhor, por tornar um ritual de passagem sagrado em um procedimento médico, mesmo que fosse parto pela via vaginal.
A primeira opção era uma casa de parto, mas não encontrei nenhuma na região. A segunda um hospital realmente humanizada, também não achei. Contudo, na busca pela casa de parto encontrei a possibilidade de um parto domiciliar. E lendo, conversando, pesquisando... essa opção foi se tornando cada vez mais real e de repente, se tornou a única em que cabia tudo que eu queria para um parto, a única que eu queria

E é assim que eu decidi ter meu filho, em casa, com acompanhamento da equipe do Bebedubem , de São José dos Campos.

Se eu tenho medo dessa escolha? Se eu tenho medo de algo dar errado? Tenho mais medos do que dedos na mão, mas quem não os tem?

PS: Um livro teve muita influência nesse desejo por um parto natural e acompanhado de outras mulheres, A Tenda Vermelha, de Anita Diamant. Mas isso fica para um outro post.

Onde encontrar informações sobre parto humanizado:


Sobre parto domiciliar: